Viajar de metro dá-me sempre asas à imaginação. Acontece sempre qualquer coisa, nem que seja porque temos, mesmo que não queiramos, de ouvir as conversas dos outros. Outra coisa que me pergunto frequentemente é porque é que assim que soa a voz que anuncia a próxima estação, a maioria das pessoas que vão chegar ao destino se obrigam a si e a todos os que estão no caminho a desviarem-se urgentemente, não vão eles perder a oportunidade de sair. Já se sabe que o metro dá solavancos a cada grau de curva ou inclinação, portanto os desequilíbrios ou quedas são frequentes.
Hoje isso aconteceu, claro. Uma senhora ouviu o nome da estação em que queria sair e foi logo como uma seta para a porta. Mas desequilibrou-se numa curva impiedosa e caíu para cima de um homem, daqueles que envergam sobretudo e têm mesmo ar de homem de negócios. Mas caíu de braços abertos, quase num abraço de paixão às escondidas.
Ali naquela fracção de segundo podiam ter-se conhecido, apaixonado, trocado um sinal para um encontro sórdido, trocado palavras que lhes são proibídas, terem-se odiado para sempre, terem cheirado o perfume do outro. Mas pode ter sido também apenas nessa fracção que simplesmente uma senhora se desequilibrou para cima de um senhor, sem mais, assim a frio. E cada um segue na sua vida, para a sua rotina sem que aquela fracção de segundo alguma vez mais entre sequer no pensamento deles. E uma paixão divinal, a dois, pode ter ali ficado também, esquecida naquele canto do metro.