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sexta-feira, setembro 14, 2007

Capítulo 4



É incrível como em tão pouco tempo conseguimos ir do melhor ao pior. Diana nem sabia como podia ter dito o que disse a Miguel. Assim a frio, no primeiro encontro, no mundo dos sonhos. Medo de tudo ou habituação à indeferença e à indecisão, deixou-a fraca, sem força para arriscar uns trocos na sua própria felicidade.
De urgência chegou-lhe Catarina a casa, no seu jeito único de amiga, consolou-a. E disse-lhe tão simples e directo como o vento:
“Olha para a tua vida e toma uma decisão. Não podes tê-los aos dois. Com qual deles deixaste a felicidade? Queres ir para os EUA? Ou arriscar? Só para que saibas, o Miguel está a fazer a mala para ir passar um mês ao Porto, talvez se empregue lá.”
Diana estava numa ponte. De um lado o risco, a emoção, a paixão e felicidade imediata. Do outro a segurança, o conhecido e a estabilidade. Talvez fosse a decisão mais difícil dos seus 29 anos, mas estava ali na mão dela o futuro. De ambos Diana sabia que como um abrir de mãos os podia deixar simplesmente ir para longe da sua vida. Como não deixar ir ambos? Para onde seguir?
Por momentos sentiu-se fraca e só, no seu quarto. Fraca, com vontade de desaparecer. Não conseguia respirar com cadência normal. Um aperto do coração roubava-lhe a felicidade, a vontade de amar. Saíu de casa a correr, pegou no carro. Não podia chegar atrasada. A hora da partida aproximava-se. Chegou e correu para o carro já quase em movimento e simplesmente gritou:
“Miguel, não fiquei com o pedido de casamento. Prefiro trocá-lo pela feliciade. Ainda vou a tempo?” – e o gritou selou-se com um beijo de eterna felicidade.
- FIM -

quinta-feira, setembro 13, 2007

Capítulo 3

(Ler o Capítulo 1 aqui e o Capítulo 2 aqui, caso tenha aberto este blog pela primeira vez)

Ricardo estava melhor do que no ponto. Voltou homem, voltou de sonhos realizados, voltou ofegante apenas por querer estabilizar. Imagine-se que contava viver com Diana, mas, há sempre um mas, teriam de aguentar o longe, o coração aos pedaços durante, no mínimo, mais um ano. Naquele momento, o sorriso contente de Diana era uma máscara que escondia um simples fundo de buraco, escuro. Sem respostas, um outro beijo remendou a indecisão.
Se máscaras nos cobrem muitas vezes ao dia, é difícil estar realmente liberta e solta. Diana estava a segundos do seu momento. Catarina acenava-lhe, Miguel sorria-lhe como se ela fosse a sua princesa há tempos presa numa torre e a tivesse salvo. Sem que dessem por isso, Catarina deixou-os, pois na realidade nada mais havia em torno deles. E se sem palavras se sentiram um no outro, em longas e perdidas horas sem silêncios das suas bocas, sentiram-se um só. Sentiram-se opostos iguais. Comuns prazeres, pontos de vista complementares.
O pôr do sol estava ali com eles, quente e sereno, acompanhava-os na marginal, viajando num dourado e calmo mar. Ao som das palavras deram as mãos. Miguel puxou-a num movimento desejado, abraçou-a. Tão inocentes quanto adolescentes, que um primeiro beijo soaria ao evento do ano.
“Pode ser a coisa mais louca da minha vida, mas nunca me senti tão feliz ao lado de alguém.” – disse-lhe num sussurro delicioso.
Diana sentia-se o centro das atenções, tratada como uma princesa. Um frio na barriga fez-lhe ter medo de sofrer, mais ou pior. E como que sem saber, no mesmo momento que ele se aproximava com um beijo, ela disse a Miguel:
“Pena que hoje mesmo tenha recebido um pedido de casamento.”

terça-feira, setembro 11, 2007

Capítulo 2

(Nota: Para quem não leu o capítulo 1, deve fazê-lo aqui)

Sinal de mensagem no telemóvel. Remetente: Ricardo. No meio de tanta tristeza e confusão só lhe faltava o reatar, uma faísca no horizonte. Ricardo é, era... Diana nem sabia bem... Namorado. Um rapaz brilhante, levado pelos sábios e experientes, para os Estados Unidos, para uma consultora. Na hora da despedida, ficou um beijo. Se esse beijo selou a relação de três anos, nenhum deles sabe. Com os fusos horários, os desencontros, a distância a alargar, parecendo já daqui à Lua. “Estou cá. Quero-te, quero-te ver!”. Tão simples e tão difícil ao mesmo tempo. Afinal, há seis meses que estavam, simplesmente, à espera.
Diana caminhava para a esplanada ao encontro de Catarina. Chegou e simplesmente abraçou a sua amiga. O desabafo durou tanto tempo quanto ela precisou, os conselhos preciosos de Catarina tinham sempre o dom de um analgésico sentimental. Quando, no fim da operação, Catarina remata:
“O Miguel ficou simplesmente fulminado por ti ontem à noite. E quer conhecer-te.”
Miguel? Por momentos desesperantes Diana esqueceu o turbilhão de conflitos e desejou que Miguel e o seu anjo da multidão fossem a mesma pessoa.
“Quem é o Miguel?” – perguntou ela com um brilho discreto no olhar.
“É meu amigo. Viu-te a abaraçar-me. Diz que cruzaram o olhar, que nunca sentiu um olhar tão quente e verdadeiro como o teu.”
“Alto? Cabelo castanho claro, meio ondulado?”
“Sim”
Sim! Só podia ser ele. O tão longe de ontem, agora tão perto, à distância da sua melhor amiga, sempre o conhecera, quem sabe, o tesouro mais desejado da sua vida. Agora cada segundo seria uma eternidade até ao momento em que iria conhecer Miguel.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Capítulo 1

Diana entrou na sala emocionada. Ia ser a estreia da peça da sua amiga Catarina, como personagem principal. Os últimos dias foram repartidos entre ajudá-la nos ensaios finais e espezinhar pensamentos na sua cabeça quente. Não lhe saía da cabeça o choque do encontro do destino com o João, já atrelado, depois de meses de mútuo namoro à distância, meias palavras e meios gestos. Estar ali rodeada de pessoas era rodear-se de distracções. Um derrame de trágicos pensamentos num oceano de alegria e burburinho. Sentou-se.
Catarina e os colegas foram divinais, a adaptação livre do texto fenomenal, os pormenores estrondosos. Um aplauso simplesmente saíu da multidão, repetido exaustivamente durante mais de cinco minutos.
Familiares e amigos rodearam os artistas. Um longo abraço das amigas, uma lágrima perdida, o sorriso do obrigado dela pelo apoio de Diana, um sorriso em troca, pelo orgulho nela.
Diana deixou então passar o grupinho dos primos da Catarina e num momento, um olhar, deixou de ver o mundo para o ver. Centésimos de segundo que durou aquele olhar, mas tão gravado ficou como a mais doce das memórias da sua vida. O brilho dele inundou-a, trouxe a alma dele até ela. Apenas um sorriso ficou no fim daquela descoberta, o longe entre eles sublinhou-se, apareceram milhares de pessoas, perdeu-se o raio dourado do seu cabelo. E se ela o perdera ali, tão rápido quanto o tinha descoberto, quanto o tinha sentido, quanto o tinha sido feliz no horizonte dele?